Entrei no carro e pus-me no trilho para casa… fui abastecer já na antevisão de que amanhã de manhã já vou estar em cima da hora para ter tempo para isso.
Viatura abastecida e novamente no carro a verdade é que este não era a caminho que me apetecia ter tomado… inverto caminho… e dou-me por achada na estrada à beira mar… sentir o ar da maresia … ver a meia-lua laranja que entretanto se escondeu no meio de tanta cacimba.
Estou perto da saída para casa… mas algo me leva mais longe… e ainda mais longe… a estrada ondula rente ao mar... está escuro como breu… nem carros à frente, nem atrás… só os meus faróis… os candeeiros e a marcação da estrada.
Sinto ainda o torpor do vinho do jantar… e ainda se passeia no meu hálito. Olho as estrelas lá no cimo e penso… num milhão de coisas ao mesmo tempo e em nada…
Este é um caminho pouco percorrido nestes tempos que correm… hábitos antigos para desanuviar as ideias…
Deixo o mar atrás de mim… entro na serra… cheiros de outrora… do mato ardido faz algum tempo e do mato novo que rebenta… deixo-me serpentear por estas estradas sinuosas… com as rochas salientes querendo apartar-se da estrada…
Vejo um homem… provavelmente um doente do sanatório… percorre aquela estrada perigosa… sempre na berma… veste uma gabardina clara – acho que é isso que o tem salvo à noite – e penso que não sei se conseguiria levar a vida que aquele homem leva… mas dou por mim a pensar que se calhar a vida que levo se assemelha muito à dele, apenas vivo rodeada de gente, sendo essa a diferença abismal que nos separa e nos faz tomar caminhos diferentes… encarar os outros, o outro, o próximo, o distante, o amado, o odiado, o indiferente… lidar com tudo e todos, passar por situações, emoções… no fundo deixar que a vida nos percorra.
Deixo de pensar no homem… na vida, na dele e na minha… acerco-me de luz… uma aldeia, festa… e vivam os santos e as festarolas de verão. Toda essa celeuma fica para trás num ápice… e de novo na estrada submersa na escuridão… entregue ao vazio da noite.